quarta-feira, 22 de junho de 2011

Prometo me dedicar mais


As vezes passamos por períodos complicados, difíceis mesmo
e a primeira coisa que costumamos fazer é deixa as coisas que gostamos de lado.
As mudanças sempre são complicados, mas como diria Guimarães Rosa, o correr da vida embrulha tudo, mas o que ela quer da gente é coragem.
Prometo ser mais corajoso agora e tentar não deixar os meus sapatos escritos parados.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Coisas do Cotidiano, a gente só não sabe que coisas são essas




Toda semana é assim, não tenho a menor idéia do que vou escrever, mas confio em meus sapatos escritos.
As histórias vão surgindo por entre letras e caminhadas, mas exclusivamente esta semana eu ainda não sei o que escrever. Escrever é difícil para burro. Ainda mais quando temos a pressão de um monte de gente que vai ler, um gatekepper especial e um público em formação. Escrever
não é simplesmente cortar palavras, como diz Drummond.
Algumas palavras, assim como sentimentos, são tão fortes que nunca podem ser cortadas ou se tornarem invisíveis para sempre. Escrever de forma autoral é ainda mais complicado.
Tem dias que o texto flui, tem dias que ele emburra, tem dias que nem dias é, mas é preciso escrever. Acho que já deu para perceber que essa coluna não será como as
outras, não será recheada de humor ou de críticas sociais.
Esta será uma coluna de enrolação, onde vou levar o leitor por um caminho e no final ele vai dizer assim: “ô lixo, já acabou, texto doido?!”.
Mas escrever, assim como filosofar, é preciso e quem nunca escreveu nada deveria se aventurar. Hoje me sinto com vontade de estar em uma Kombi, pintada com formas psicodélicas, numa pracinha qualquer, de uma cidade qualquer, escutando a chuva batendo no teto e conversando bobagens para ver se a inspiração bate.
Mas os desejos não produzem textos e nem enchem sapatos, o máximo que eles produzem são fadas, que podem ser as menores do mundo ou as que só existem em nossa imaginação, como um dia pensou o inglês J.M. Barrie, autor de Peter Pan.
Textos também produzem sonhos e incógnitas na cabeça de muita gente que lê essa coluna e pensa que ele foi escrito para alguém ou com um porquê. Na verdade, este texto pode estar cheio de energias, que em camadas, como as de cebola do Shrek, podem levar a luz plena. Mas isso pode ser apenas um devaneio, como pensar que Dom Quixote pode estar na esquina em busca de doces de beijinho ou tabuleiros de xadrez, para jogar com Dulcinéia.
As palavras buscadas e rebuscadas, desenhadas e codesenhadas podem levar a personagens de quartetos fantásticos de alguém, que se sente carente, ou simplesmente desembocar em um beijo caloroso e dormir de conchinha embaixo de um edredom azul.
A coluna de hoje, para a maioria, não vai dizer nada com nada, mas para alguns ela vai ser traduzida em cotidiano. Escrever realmente é difícil para burro, mas para entender um texto completamente como esse tem que ser como elefante, que tem uma boa memória, mas é burro também. É conhecer os segredos da esfinge traduzidos em decifra-me ou te devoro.
Então?! Vocês podem me acusar de tudo, só não podem dizer que eu não avisei antes e que a condicionante era terminar o texto dizendo assim: “ô lixo, já acabou, texto doido?!”.

Exageros, amizade e cadeado

Há amigos que são para sempre. Não importa quanto tempo à gente esteja sem se ver, quando nos reencontramos é como se não tivéssemos nos separado nem por cinco minutos.
Os meus amigos são assim. Passamos muito tempo juntos, mas com as atribulações e as responsabilidades da vida adulta acabamos nos afastando um pouco.
Alguns desses amigos seguem esta coluna, outros não, mas eles sempre farão parte dela, pois as histórias dos meus sapatos escritos estão recheadas de amizade.
Quando éramos crianças/adolescentes sempre nos encontrávamos na pracinha da Igreja do bairro de Lourdes. Éramos um tormento e um hiato de alegria no lugar. A pracinha era sempre movimentada com a nossa presença e do futebol às brincadeiras de polícia e ladrão a gente sempre transformava os jardins suspensos em palcos de atividades físicas.
Exageros também eram por nossa conta e algumas beatas, que também exageravam na fé, não gostavam muito de nossa presença. Em outubro, a pracinha se enchia de fé e de gente, que invadia o nosso espaço para celebrar Nossa Senhora Aparecida. Em um desses anos, exageradamente arrumamos uma brincadeira um tanto estranha.
Um de nós tirou o cadeado e a corrente utilizada para prender nossas bicicletas voadoras e começamos a prender uns aos outros. O dono da chave é que decidia quando iria soltar o escolhido.
Fazíamos questão de prender nossas vítimas próximas à entrada da Igreja, só para constranger o preso.
Em uma dessas prisões, prendemos o Guilherme pelo pescoço, em um poste de iluminação do jardim. Eram por volta das 14 horas, fizemos o nosso presidiário e continuamos a brincar. Como a próxima missa seria às 15, deixamos o Guilherme preso e para constranger ainda mais erguemos um “altar” com oferendas, flores, cachaça, farofa bem longe do alcance dele. O pessoal ia chegando e não entendia nada. Todo este sincretismo religioso soava tão estranho, mas nós chorávamos de rir.
Nesse meio tempo, apareceu a namoradinha do Guilherme que, indignada, resolveu ajudar o amado.
Com uma faca de cortar pão ela tentava serrar os elos grossos da corrente. A cena dantesca para nós era digna de Molliére, rei da comédia teatral.
Depois que o pessoal entrou na Igreja e a missa começou, decidi ir embora para casa. Era sempre assim, eu descia para tomar café, banho e voltava à noite para as barraquinhas. Voltei por volta das 19h30, de banho tomado, renovado e com roupa de festa e enquanto descia a rua 10 notei que o Guilherme estava preso no mesmo lugar. Aí pensei: “prenderam o Guilherme de novo” e já comecei a rir.
Quando cheguei perto dele fui logo perguntando se ele tinha sido pego de novo. Com os olhos vermelhos e a voz embargada ele me respondeu: “Não. Eu estou preso desde aquela hora. Eles foram embora e me deixaram aqui. Estou morrendo de fome, de sede e ainda me segurando para não fazer xixi nas calças” e desatou a chorar.
Coube a mim ir atrás do carcereiro e aliviar o sofrimento do preso.
É! Exageros cometíamos, mas o maior deles era ser superlativos em amizade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Nine



Só case se tiver certeza. Se casar, torne intenso cada momento vivido. A gente nunca sabe quando a alegria vai acabar. Divida sonhos, divida o dinheiro, jogue fora as velhas e emboloradas preocupações.
Se tiver em dúvida ou se sentir dividido, esqueça os conselhos, ouça seu coração. Ame apenas uma pessoa de cada vez. Só traia se não tiver sido traído. Porque quem já sofreu a dor de uma traição jamais irá proporcionar o mesmo sentimento a quem se ama. E lembre-se se trair terá que aguentar todas as conseqüências.
Tome mais sorvetes italianos de casquinha, ria mais, chore menos, preocupe-se menos. Liberte-se das conveniências, destrua os ciúmes e saiba que o máximo que ele vai lhe trazer é uma azia exagerada.
Olhe nos olhos, durma mais de conchinha. Ame mais debaixo de um edredom azul. Acredite em você quando disser que ama. Não engane, não esconda, não se desespere. Esqueça a saudade de noitadas, deixe o passado onde ele deveria estar, no passado. Não tente resgatar algo que já se perdeu ou fazê-lo conviver com seu presente. Isto não vai dar certo.
Viva o hoje, preocupe-se cada vez menos com o futuro e ame cada vez mais o cheiro de terra molhada numa manhã chuvosa.
Faça mais chocolates quentes com chocolate amargo. Espante mais lagartixas, não deixe os ratos da discórdia invadirem o seu coração. Se solte mais, viaje cada vez mais, mesmo que for para o seu eu interior.
Ame mais dentro do carro. Corra mais vezes nu pela casa. Faça cada dia mais, mais amor debaixo do chuveiro, na água quente, mesmo que seja em uma pousada fria.
Cante, se desdobre. Produza canções sem sentido. Desenhe flores em papéis de contas de supermercado. Prepare jantares. Deixe a comida queimar em troca de beijos calorosos. Escute cada vez menos a inveja de quem de fora vê esse amor.
Ouça Milton, visite Ouro Preto ou qualquer outra cidadezinha em que é possível encontrar a felicidade em uma pequena cama de hotel. Quando a dor te cortar busque forças na paixão.
Empolgue-se ao compartilhar momentos de sucesso, incentive sonhos, destrua pesadelos, acorde de madrugada para acalentar o sono.
Sinta o coração bater mais forte ao se reencontrar. Entre na sintonia do amor em pequenos cartões, em pequenos gestos, em caldos feitos em noites frias. Ame o colo, o ombro onde se deita em berço esplêndido. Queira sempre por inteiro e tenha sempre sua metade de volta.
Desfrute de cada beijo dado no pescoço, descubra o prazer de um sorriso sem motivo. Respeite o silêncio e a tristeza, mas não faça deles sua bandeira e nem deixe que o outro os tome como estandarte. Beba mais. Tome um porre de vez em quando e case-se de novo, com a mesma pessoa é claro, mesmo que no outro dia não se lembre, alguém vai fazer questão de recordá-lo como se encontra a felicidade. Passe mal, vomite se necessário, mas lembre-se que do outro lado da porta alguém sempre estará pronto para lavar sua blusa suja.
Seja a síntese e antítese. Desnude-se sem pudor. Derrote os mal amados. Acredite no amor que dá certo e esteja certo que mesmo na incerteza do dia seguinte ele ainda estará lá.
Resista às tentações logo de cara. Não deixe que o mal se aproxime, mesmo que de brincadeira. Não jogue tudo fora por um simples gracejo. Saiba que o que pode não significar nada para você, pode destruir a única que certeza que o outro tem e simplesmente fazê-lo perder o chão. Perceba que às vezes palavras ditas ou escritas sem querer magoar, magoam muito e carregam emoções para o mar da melancolia. Não toque onde não deveria. Não procure algo que possa se arrepender depois. O instante entre a felicidade eterna e a desconfiança pode estar a um clique. Arrependa-se do que fez, evite repeti-lo, mas esqueça o logo depois.
Reforme a casa, plante um gramado, reforme pensamentos, plante carinho. Descubra a alegria em vestido vermelho, faça coisas boas mesmo que só você saiba quais são.
Dedique-se a amar quem você escolheu para se casar. Seja emotivo, prudente, não seja leviano com os sentimentos dos outros. Seja você, descubra-se fraco perante as situações que causarem dor a pessoa amada, mas demonstre-se forte, ainda que por dentro estiver em frangalhos.
Mesmo que esteja magoado e queira brigar, xingar e perder a razão, não faça isso. Só servirá para se arrepender no dia seguinte e humilhar quem se gosta.
Visite museus ao livre, áreas ecológicas onde é possível sentir o cheiro da vida, brigue para entrar em um parque aquático para ter lembranças e sorrisos depois. Aperte a mão ao decolar, respire aliviado ao pousar pela primeira vez. Não fique constrangido ao dar de testa em um box de banheiro. Tente não passar mal no dia do seu noivado. Mas se sentir enjoado e com ânsia, relaxe. As boas emoções da vida são capazes de efeitos ou sensações físicas que vão muito além de nossa compreensão.
Respeite a individualidade, não leia aquilo que não é para você. Acredite no poder das palavras sejam elas para o bem, sejam elas para o mal. Diga não quando tiver que dizer não. Nunca use o talvez. No máximo fique em silêncio, que geralmente nunca quer dizer sim e nunca mais entre nesta situação.
Chore! Mas só chore quando realmente tiver motivo. Entristeça-se aos descobrir coisas ruins, mas não se martirize ruminando aquilo que não interessa. Saiba que mais dia, menos dia você vai magoar e será magoado também. Só não permita que isto seja uma constante. Jamais durma sem falar com o outro. Jamais deixe o lugar vago na cama. Despeça-se sempre com um beijo e dê boa noite ao dormir. Reze ou ore como você preferir denominar o que chamo conversar com Deus. Mas faça-o sempre juntos.
Ame com toda a intensidade do seu coração. Descubra o ritmo certo, siga o ritmo certo e só se case se realmente tiver certeza.
Porque o amor mora nos pequenos detalhes do cotidiano e o diabo também.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A comédia em pessoa



Sem delongas, para não dar preguiça de ler. Existem pessoas que só da gente olhar já dá vontade de rir. E têm algumas, que mesmo não querendo, ou as namoradas, esposas, mães, pais, filhos torcendo o nariz elas são engraçadas por natureza.
Uma das pessoas mais engraçadas que já conheci com certeza é o Dodete. Não é que o Dodete tenha uma naturalidade cômica, mas ele cria(va) e se envolvia em situações de dar inveja a qualquer comediante hollywoodiano.
O físico do Dodete, quando jovem, que lhe valeu o apelido de Grilo, a alta estatura e principalmente a língua presa, que o impedia de falar palavras corretas, sobretudo às com erres, compunham um personagem exemplar.
Quando conhecemos o Dodete todo mundo batia nele. De brincadeira é claro. Preocupado, o Fabrício um dia virou para o Calango e perguntou:
- Por que vocês batem no Grilo? Ele é gente boa demais.
- Gente boa???? Você vai ver quando ele pegar intimidade. Ele amola muito, isso sim.
Era verdade. Depois de um tempo também precisávamos dar uns cascudos nele para ele aquietar. O Dodete era aquele tipo de cara chato, gente boa. Que enche o saco de todo mundo, mas que no fundo todo mundo gosta.
Uma vez, fomos a um sítio. O Dodete e o Bruno beberam demais e acabaram passando mal. O Dodete ainda deu duas cabeçadas na parede, tentando entrar numa porta imaginária. Depois disso, a gente trancou os dois em um quarto e fomos dormir na sala. Espalharam uns colchões pelo chão. Eu juntei duas poltronas pequenas de sofá e fiquei todo “encumbucado” na cama improvisada.
Altas horas da madrugada os dois acordam. Vêm para a sala e dizem que vão dormir lá porque o quarto estava “azedo”. Só que o Dodete não deixava ninguém dormir. Aprontou uma falação, uma cutucação. Amolava mesmo. Depois de mais duas horas naquela peleja o Bruno levantou, acendeu a luz e foi taxativo:
- Agora é sério. Quem disser qualquer bobagem, gritar ou falar, vai tomar porrada para valer dos outros. Sem dó. Combinado?!
Todos concordaram. O Dodete ainda deu uma risadinha irônica antes de o Bruno fazer a contagem e apagar a luz:
- Um, dois, três...
Eu já tinha armado o soco para dar no Dodete. Todos nós sabíamos que ele não ia ficar calado. Mas, sempre tem um mas, por incrível que pareça, houve um silêncio sepulcral por alguns minutos naquela escuridão. Quando de repente:
- Auuuuuuuuuuuuu.
Era a deixa que todos aguardávamos para o espancamento do Dodete. Eu estava em posição privilegiada, pois estava mais alto que os outros. Naquele breu, todo mundo batendo no Dodete. Pior que quanto mais a gente batia nele, mas a gente ouvia a risadinha sarcástica do danado. Aquilo me dava uma raiva e eu o enchia de sopapos.
Minutos depois, de porrada ininterrupta, finalmente a gente escuta um chiado:
- Ai... Pára de bater, vocês estão batendo em mim, não no Dodete.
Instantaneamente a luz se acendeu. Do lado do interruptor, sem nenhum arranhão e até roxo de tanto rir estava o Dodete. O @##%¨&* tinha se levantado no escuro e buscado um local seguro, por isso o silêncio. Quando gritou, empurrou o Cabeça para o lugar onde ele estava deitado. O primeiro soco que o Bruno deu acertou em cheio a boca do estômago do Cabeça que, sem ar, não conseguia dizer que batíamos na pessoa errada. Depois disso a gente não dormiu porque o Cabeça ameaçou cortar a garganta do Dodete enquanto ele dormia.
Assim é o Dodete. Quando estudávamos, ele chegava todo esbaforido na cantina do Estadual:
- Ô Zuninho me dá uma cossinha, um guaianá e dos salgado – era forma dele pedir merenda e dois salgados.
- Dodete tem Guaraná não.
- Podi cê Guaiapan então.
Um dia fomos à casa do Sílvio Bernardes, diretor de Teatro. À época, a Ana Bella, filha do Sílvio, era bem pequena. Conversa vai, conversa vem, o Dodete fala com a menina que tinha um monstro no armário. Duas semanas depois o Sílvio reclama com a gente:
- Não sei o que a Ana Bella tem. Ela não quer dormir mais no quarto.
Outra vez, fomos encenar a dona Baratinha na extinta escola Crescer. O Dodete foi o Touro. Um monte de criança pequena assistindo a peça, rindo, se divertindo com a gente. Até que o Dodete entra em cena, corre em direção aos meninos e de uma forma nada lúdica, solta um mugido tão pavoroso que até a gente assustou. Preciso dizer que os menininhos não pararam de chorar mais e que a gente ficou sem o cachê da apresentação?
Mas o mais engraçado foi quando fomos a um parque de diversões. Assim que chegamos o Dodete, o Samir e o Rhafir foram andar no Rotor. Quando eles foram subindo eu ainda avisei:
- Dodete não anda nisto não. Você vai passar mal.
- Que isso Zuninho. Uuuuu mauco. Queo é rodá.
O Rotor começou a rodar e o Dodete gritando, fazendo gracinhas. Na hora que o brinquedo pegou embalo, só escutava o Rhafir dizendo:
- Vira para lá Mané. Não vai vomitar em mim não.
Um menino de sete anos começou a consolar o Dodete:
- Moço passa mal não. Moço, levanta a cabeça, moço...moço...
O Samir desesperou-se:
- Pára! Pára essa P* que estou contra o vento....
Eu que já sabia o que ia acontecer, corri para longe do Rotor. Pena que não deu para avisar quem estava próximo ao brinquedo. Um monte de gente, assim como o Dodete, teve que ir embora para a casa mais cedo...

Tudo que existe na sombra, existe na luz... exceto o medo


Aquelas histórias de assombração mexeram com a gente. No rosto de cada um estava estampado certo temor, ainda que disfarçado pelo grau alcoólico em que nos encontrávamos. Era só parar a conversa que ficávamos desconfortadamente quietos.
A essa altura o Bruno já estava no nível máximo da escala etílica e vendo a galera ressabiada, fixou os olhos na janela de madeira, da cozinha do sítio, e disparou:
- Se existe o Capeta que ele apareça aqui agora.
- Pára com isso Bruno. Isso não é coisa que se fale.
- Ah não Bruno, agora você pegou pesado demais.
Ficamos todos assustados e para piorar, escutamos passos, como se fossem cascos do lado de fora da casa. Satisfeito com a repercussão, o Bruno não parava de chamar o Tinhoso. O terror se instalou entre nós, porque tem coisas na vida que a gente não pode brincar. O Cabeça, ao meu lado, tremia e o resto da galera ria de nervoso.
De repente, alguém apagou as luzes. O Bruno começou a fazer uns barulhos estranhos, como que possuído. Preciso confessar que comecei a tremer também. Então, do nada, surgiu uma bola de fogo no meio da cozinha. Antes que pudéssemos ver o que estava acontecendo já saímos correndo. Eu só tive tempo de ver cinco ou seis passarem juntos por uma porta que só cabia um.
Até o Bruno se assustou, mas estava bêbado demais para correr. A bola de fogo girava pela cozinha escura. Instintivamente peguei uma faca para me defender. Até parece que ia adiantar. Como eu ia esfaquear uma alma penada?
De repente, da bola de fogo veio um sorrisinho conhecido. Fixei os olhos e vi que a assombração nada mais era que o Dodete. Enquanto o Bruno chamava o “Sete Peles”, o Dodete se levantou e apagou luz. Ai pegou a vassoura de coqueiro, colocou no fogo e começou a rodar pela cozinha escura.
O Tiaguinho, que tinha ficado imóvel de medo, explodiu num grito:
- Dodete!!!! Minha tia vai me matar – disse cada vez mais arrependido de ter nos trazido para o sítio.
O Dodete apagou a vassoura ou que sobrou dela, no balde que eu tinha pegado para apagar os “quase incêndios” anteriores O Bruno começou a falar besteira novamente. Todo mundo já estava irritado e ameaçamos:
- Bruno. Se você não parar a gente vai te trancar lá fora.
Como ele não deu ouvidos, cumprimos o prometido. O empurramos para a área de serviço e trancamos a porta.
No início, ele continuou com a história e fazendo barulhos, depois ficou em silêncio, depois bateu na porta:
- Gente abre aqui. Vou parar.
Nenhum de nós se mexeu:
- Gente. Abre. Estou ficando com medo. Abre logo senão vou arrombar a porta.
Nada. Todo mundo parado. Passados alguns minutos ouvimos novamente passos arrastados lá fora e a seguir veio barulho de algo se quebrando. Virei para o local de onde tinha vindo o som e ainda deu tempo de ver a porta da cozinha desmontando.
O Bruno tinha mesmo arrombado a porta. Assustado com o barulho, ele deu uma “voadora” na frágil porta, feita de ripas colocadas lado a lado. A porta não resistiu e as ripas se soltaram.
- Eu avisei – disse o Bruno saindo do meio do feixe de madeira.
- Gente! Minha tia vai me matar – lamuriou-se o Tiago, desta vez certo de que não deveria ter nos trazido.
Começou bate-boca geral, todo mundo xingando o Bruno. Pareciam mil pessoas. De repente a gente escuta o barulho de um soco. Ploft!
O Cabeça, que realmente tinha medo de assombração, estava xingando o Bruno que ficou irritado e deu um soco, meio que de brincadeira, no braço dele. Só que o Bruno é muito forte, então qualquer soquinho, mesmo que de brincadeira, faz um barulhão.
Foi como naqueles filmes. A falação cessou instantaneamente. Olhamos todos com cara de reprovação para o Bruno. O Cabeça, com a mão no ombro, parecia querer chorar. Só o Bruno ria e ao tentar sentar em uma mesa redonda a mesma desmontou e lançou um vaso ao chão.
- Gente. Minha tia vai me matar.
Acho que vocês já sabem quem disse isso?!
Decidimos ir dormir. Dormir nada. Um de nós, apagou devido à bebida. Colocamos ele no chão, para não cair do beliche. Só não percebemos que ele ficou respirando o veneno de rato deixado no chão, ao lado do colchão. No outro dia, não sabíamos se ele ainda estava tonto do álcool ou do veneno.
Já estávamos mais ou menos acomodados, com a casa escura quando vimos uma sombra pular do beliche.
- Oia o que que eu vô fazê – disse o Dodete se aproximando do nosso companheiro apagado.
Sempre quando alguém apagava, nós fazíamos sacanagem. Passávamos creme dental no sujeito, batom e outras peraltices. Mas daquela vez o Dodete se superou. O varapau se aproximou do amigo. Como estava um breu danado só escutamos o barulho de água caindo.
- Ô Dodete onde você arrumou água?
- Que água o quê? Eu tô é fazendo “sisi” nele.
Explodimos na gargalhada. Preciso dizer que depois que nosso amigo descobriu o banho que tomou nas pernas o Dodete nunca mais dormiu antes dele. Até hoje o Dodete está jurado porque é claro que contamos depois.
Para disfarçar, o Dodete jogou óleo de cozinha no coitado.
- Ah não, vai manchar o colchão. Minha tia vai me matar.
Depois disso, o Dodete pulou a janela do quarto e se dirigiu para porta da frente. O Aldair tinha se aboletado no sofá e já começava a dormir. O Dodete então, esmurrou a porta, acordando o coitado, que de um salto só ficou sentado na cama improvisada:
- Gente...gente...tem gente aqui.
- Aldaiiii eu vim te buscáaaaaaaa...
O Aldair se levantou. Correu para copa. Nisto alguém puxou o seu cobertor, que rasgou no meio certinho. De madrugada, o coitado do Aldair passou tanto frio que quase chorou de raiva. Na correria, alguém subiu em cima de uma cama de casal e a quebrou. Preciso dizer o que o Tiaguinho disse?!
O Dodete entrou e disse que havia vacas no curral. Estava explicado os passos que ouvimos.
No outro dia, tudo que se quebrou foi consertado. As exceções foram o vaso e o colchão, que realmente manchou. Bem. A história não terminou bem assim porque quando o resto do pessoal chegou no outro dia:
- Ué gente? Mas vocês não compraram bebida e comida para os dois dias?! Só sobrou essa meia garrafa de vodca???????
Pensei em correr, mas eu ia ficar por último mesmo....

Serpentina, banho quente e mais um incêndio ou de como o fogão também toca fitas



Voltávamos a pé da cachoeira. Quando nos encontramos com o Aldair, que vinha voltando da casa, depois de mais uma conferida no feijão, que ele insistia em cozinhar em uma panela, o que a gente mais queria era descanso e se preparar para noite. Tínhamos andado demais aquele dia.
Quando chegamos a casa, o feijão do Aldair continuava lá, na panela. Depois de mais de quatro horas de cozimento ele começava a dar sinais que seria vencido pela persistência do Aldair, que virava e mexia, colocava mais água no feijão.
Tomamos café e ficamos ali na “boresca”. Como éramos muitos, começou a briga por quem tomaria banho primeiro. Na casa, havia apenas um chuveiro de serpentina e como a caixa era pequena se a água acabasse teríamos que ir ligar a bomba. Só o Dodete parecia não se importar com a fila do banho.
- Pode i tomá banho pimeiio. Eu vô po último – dizia ele na língua sem os erres.
De cara já achamos estranho. Aquilo dele deixar a gente tomar banho primeiro só podia ser golpe.
Fizemos a fila, marcamos com chinelos a posição de cada um e limitamos o tempo do banho. Não me lembro bem quem foi o primeiro. Lembro apenas do urro que ele deu dentro do banheiro. Explico: para quem não sabe como funciona um chuveiro a serpentina, eu desenho. O chuveiro a serpentina é o avó do aquecedor solar. A mecânica é a mesma, só que ao invés da água passar pelas placas aquecidas pelo sol, ela passa pelos canos instalados dentro do fogão de lenha. Ou seja, em alguns casos a água ferve mesmo. Para se temperar a água é preciso abrir uma torneira de água fria e assim tomar um banho morno. O primeiro a tomar banho naquela tarde não sabia disso e como o Aldair tinha mantido o fogo aceso o dia inteiro, para cozinhar o danado do feijão, a água estava até supitando.
Sei que depois do grito, a galera descobriu como não se queimar e um a um fomos tomando banho:
- Agoa eu vô fica debaixo do chuveiio até a água acabá, sou o último mesmo – disse rindo o Dodete.
Sabia que ele não teria ficado por último à toa. Lá se foi o Dodete para o banheiro. Na boca, um sorriso irônico.
Passados alguns minutos, chega o Dodete, enrolado na toalha.
- Que bosta sô. A água acabô. Vou te que i lá liga a bomba.
Caímos todos na gargalhada. O diabo planeja, Deus toma. Trem bão. Achou que ia se dar bem em cima de nós, se ferrou. Lá se foi aquele varapau, em meio ao mato, ligar a bomba. Enquanto a caixa enchia, a carne na churrasqueira chiava gostoso. A gente bebia alegremente.
A esta altura, o feijão do Aldair já estava quase cozido. Segundo ele, agora era só deixar as brasas manterem o calor que quando a gente fosse jantar estaria no ponto. Ele apagou o fogo e deixou só nas brasas.
Quase uma hora depois, a caixa começou a verter água pelo ladrão. Sinal de que já estava cheia. Lá se foi o Dodete desligar a bomba e finalmente tomar seu banho.
- Ô Zuninho. Como é que faz para toma banho quente? A água tá fiia.
- Ah Dodete. É porque o fogão está sem fogo. Bota lenha que vai esquentar.
Disse isso e voltei para a área de serviço. Já tinha anoitecido. A casa estava escura e só a lâmpada perto da churrasqueira ligada.
- Fogo. O Dodete botou fogo na cozinha. Minha tia, vai me matar – gritou o Tiago.
Incêndio de novo não. Lá fui eu em busca do balde com água. Quando cheguei na porta da cozinha, o Dodete vinha saindo do banheiro:
- Ô Zuninho, deu certo não. Coloquei fogo no fogão e água tá fiia.
Quando olhei para o fogão, o Dodete tinha mesmo colocado fogo lá. Só que ao invés dele colocar fogo dentro do fogão, ele tinha pegado madeira compensada e colocado em cima da trempe. O fogaréu estava indo no teto.
- Meu feijão. Dodete, você é louco, o fogo é dentro do fogão, agora meu feijão deve ter queimado - reclamou o Aldair.
Colocamos a madeira pegando fogo no lugar certo, o Dodete finalmente tomou o banho e decidimos jantar.
Até hoje guardo na memória a cara de satisfação do Aldair quando ele comeu a primeira colher de feijão. Ele olhou para a gente, sorriu com os dentes todos pretos:
- Gente. Isso ficou bom demais.
E tinha ficado mesmo. Também um feijão cozido em mais de 12 horas não tinha como ficar ruim.
Pouco tempo depois já estávamos mais para lá do que para cá. Não sei por que, mas sempre que a turma está reunida em um sítio, rola algumas conversas sinistras de assombração. Naquele último sítio, com um quarto apelidado de “Morte do Demônio”, não foi diferente. Sentamos e começamos a falar bobagens sobre espíritos, assombração etc.
Àquela altura da noite, a gente já estava para lá de Marrakesh. O assunto foi ficando pesado..foi ficando pesado.... Ai o Dodete levantou, deu uma passada perto do toca-fitas. Abaixou um pouco o volume, passou pelo fogão. Sentou e disse:
- Eu queiia fala não. Mas alguém pegou uma fita e zugou no fogo ali.
Naquela época, fita cassete era algo caro. De verdade. Não era como hoje. Não tínhamos internet, gravávamos músicas ou de discos dos amigos, ou das rádios. Era uma aventura
- Minha fita do Bon Jovi. Eu te mato Dodete – berrou o Cabrito que era fã do Bon Jovi. Inclusive tinha um pôster no quarto dele, que ele insistia que era do irmão. (Risos. Ele vai me matar quando ler isto aqui).
O episódio foi até bom, para descontrair os ânimos e quebrar o clima tenso. Mas assim que apartamos a briga o assunto dos espíritos voltou. O Bruno, que a essa altura já tinha virado monstro por causa do álcool, olhou fixamente para a janela e disse uma coisa que deixou todo mundo apavorado.....

Continua...