sexta-feira, 24 de junho de 2011

Coisas prestes a completar 33



Vendo memórias, não sonhos e nem pesadelos. Vendo uma vida que não foi sua e nunca minha também. Vendo imagens rabiscadas em letras garrafais de um jornal. Vendo lembranças emolduradas em um sapato velho e gasto no pé direito. Vendo solidão, vendo inquietude, dou, de graça, com todo o pleonasmo possível, alegria, pelo menos tento que não entrem na porta da tristeza.
Vendo negativos de uma história caminhada em fragmentos. De uma expectativa de coisas que nunca aconteceram ou que se aconteceram esqueceram-se de me vender.
Vendo um velocípede, verde, vermelho, de três rodas que pode levá-lo a qualquer lugar sem precisar de esforços. Vendo um quintal enorme com inúmeras árvores e uma mangueira com um balanço, capaz de fazer você saltar tão longe que nem caxumba lhe pegará.
Vendo duas escadas de cimento postas lado a lado, que mimetizam traves em um campo de futebol. Vendo uma área de serviço com um tanque, onde quando se lava roupa, muito se molha e muito se xinga, armas feitas de elásticos com munição de tampinha.
Vendo um gesso, para que possa ser enterrado junto com o sofrimento. Vendo um caminhão que distribui refrigerantes feitos por índios Bugres. Vendo um tanque que de pé quebrado inveja os saltitantes e machuca a perna de quem gosta de olhar o céu em busca de doce de leite.
Distribuo, mas não vendo, apenas empresto, amizades feitas debaixo de uma Mangueira, ou seria em uma escola de tijolos de construção?
Vendo um pôster do Zé Carioca, manete de Atari, corda arrebentada de Vai e Vem, tamancos feitos de latinha de Nescau, baratinhas que não é preciso pisar para que sejam esmagadas. Vendo pombos, micos, cachorros. Só não vendo minha tartaruga que ficou para trás na calmaria das boas coisas e se hibernou no paraíso. Vendo um Lupy, vendo um Juquinha, vendo um pezão.
Vendo meu primeiro beijo, vendo minha primeira paixão. Vendo idas e vindas infinitas a capital, recheadas de bananas nanicas, não maçãs, mas sim bananas.
Vendo o cheiro de parafina, os choques nos braços. Vendo um médico que de tão competente é capaz de fazer caminhar e criar monstros. Vendo um playmobil sem cabelo, vendo um quintal lamacento com espigas de milho de lado a lado. Vendo uma menina andando em uma barra circular vermelha no meio da bola do quadro. Vendo uma mobilete batida em muros de chapa.
Vendo três copos de vitamina de banana, um grande, dois pequenos. Vendo perfumes, Avon, bijuterias compradas na galeria do Ouvidor, capazes de sustentar os sonhos. Vendo um avô, uma poltrona e o Jornal Nacional. Vendo uma avó e um fogão de lenha. Vendo uma família distantemente amada na boca de uma favela. Vendo outra avó de queixinho arrebitado sempre presente.
Vendo alguém despencando de um pé de fruta do Conde, uma casa centenária em um chão de terra vermelha. Vendo um riachinho e bois para se correr em desespero. Vendo um barracão, vendo um Fusca branco, vendo festas com piscas-piscas de Natal. Vendo gelo seco feito de talco, vendo uma bicicleta voadora, vendo livros em biblioteca.
Vendo cartas, vendo um entregador de jornal cansado, vendo letras tipografadas no sábado pela manhã. Vendo máquinas de escrever quebradas, fitas de vídeo empoeiradas. Vendo lágrimas, vendo uma boa visão, vendo colírios para se pingar duas ou uma vez ao dia. Vendo botas com ferro até o joelho.
Vendo o medo, vendo a insegurança. Vendo confiança, vendo e-mails, vendo conversas, vendo tristeza. Vendo, vendo o lusco-fusco, vendo um fantasminha, vendo guerra de mamonas verdes, vendo sabotagens e travessuras. Vendo choro na linha do trem, vendo uma casinha azul de janelinhas brancas onde o vento da madrugada tem permissão de entrar sempre que quiser. Vendo xadrez, vendo Poker, vendo passeios não feitos, beijos não dados, sonhos não realizados. Vendo desejos, engraxo, não vendo, sapatos.
Vendo insensatez, vendo bonés, vendo piscinas para se atravessar, óculos para nadar e braços para se quebrar com bolas de basquete. Vendo amizades, Vendo kichutes, congas azuis, cadernos em que se pode apenas escrever na folha, não na contrafolha. Vendo histórias inusitadas.
Vendo casinhas feitas de madeiras, enceradas com cera vermelha. Vendo declarações de amor, buquês de rosas, surpresas, serenatas. Vendo decepções. Vendo decepção.
Vendo mau caráter, vendo cartões roubados em papelaria, vendo um cartucho de vídeo-game do Sonic. Vendo um barracão. Pago para levar pão com salame e miojo. Vendo leads, cabeças, notas pé, sonoras, edição não linear, diagramação, gatekeepers, vendo conhecimento.
Vendo o Mineirão lotado, vendo gols do Guilherme e Marques e as tantas eliminações cruzeirenses, inclusive a do brasileiro de 99.
Vendo o provincianismo, vendo chefes prepotentes, chefes gente boa, vendo colegas de trabalho, vendo selos, vendo energia.
Vendo tudo, tudo passando, tudo se indo, tudo vindo. Vendo, sem remorso. Vendo para comprar tudo novo e de novo. Há só uma coisa que não vendo, para ficar curioso, nem vendo...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Flagrantes




Então que num dia de sol, três siriemas vieram dar o ar da graça na rua de casa...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Prometo me dedicar mais


As vezes passamos por períodos complicados, difíceis mesmo
e a primeira coisa que costumamos fazer é deixa as coisas que gostamos de lado.
As mudanças sempre são complicados, mas como diria Guimarães Rosa, o correr da vida embrulha tudo, mas o que ela quer da gente é coragem.
Prometo ser mais corajoso agora e tentar não deixar os meus sapatos escritos parados.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Coisas do Cotidiano, a gente só não sabe que coisas são essas




Toda semana é assim, não tenho a menor idéia do que vou escrever, mas confio em meus sapatos escritos.
As histórias vão surgindo por entre letras e caminhadas, mas exclusivamente esta semana eu ainda não sei o que escrever. Escrever é difícil para burro. Ainda mais quando temos a pressão de um monte de gente que vai ler, um gatekepper especial e um público em formação. Escrever
não é simplesmente cortar palavras, como diz Drummond.
Algumas palavras, assim como sentimentos, são tão fortes que nunca podem ser cortadas ou se tornarem invisíveis para sempre. Escrever de forma autoral é ainda mais complicado.
Tem dias que o texto flui, tem dias que ele emburra, tem dias que nem dias é, mas é preciso escrever. Acho que já deu para perceber que essa coluna não será como as
outras, não será recheada de humor ou de críticas sociais.
Esta será uma coluna de enrolação, onde vou levar o leitor por um caminho e no final ele vai dizer assim: “ô lixo, já acabou, texto doido?!”.
Mas escrever, assim como filosofar, é preciso e quem nunca escreveu nada deveria se aventurar. Hoje me sinto com vontade de estar em uma Kombi, pintada com formas psicodélicas, numa pracinha qualquer, de uma cidade qualquer, escutando a chuva batendo no teto e conversando bobagens para ver se a inspiração bate.
Mas os desejos não produzem textos e nem enchem sapatos, o máximo que eles produzem são fadas, que podem ser as menores do mundo ou as que só existem em nossa imaginação, como um dia pensou o inglês J.M. Barrie, autor de Peter Pan.
Textos também produzem sonhos e incógnitas na cabeça de muita gente que lê essa coluna e pensa que ele foi escrito para alguém ou com um porquê. Na verdade, este texto pode estar cheio de energias, que em camadas, como as de cebola do Shrek, podem levar a luz plena. Mas isso pode ser apenas um devaneio, como pensar que Dom Quixote pode estar na esquina em busca de doces de beijinho ou tabuleiros de xadrez, para jogar com Dulcinéia.
As palavras buscadas e rebuscadas, desenhadas e codesenhadas podem levar a personagens de quartetos fantásticos de alguém, que se sente carente, ou simplesmente desembocar em um beijo caloroso e dormir de conchinha embaixo de um edredom azul.
A coluna de hoje, para a maioria, não vai dizer nada com nada, mas para alguns ela vai ser traduzida em cotidiano. Escrever realmente é difícil para burro, mas para entender um texto completamente como esse tem que ser como elefante, que tem uma boa memória, mas é burro também. É conhecer os segredos da esfinge traduzidos em decifra-me ou te devoro.
Então?! Vocês podem me acusar de tudo, só não podem dizer que eu não avisei antes e que a condicionante era terminar o texto dizendo assim: “ô lixo, já acabou, texto doido?!”.

Exageros, amizade e cadeado

Há amigos que são para sempre. Não importa quanto tempo à gente esteja sem se ver, quando nos reencontramos é como se não tivéssemos nos separado nem por cinco minutos.
Os meus amigos são assim. Passamos muito tempo juntos, mas com as atribulações e as responsabilidades da vida adulta acabamos nos afastando um pouco.
Alguns desses amigos seguem esta coluna, outros não, mas eles sempre farão parte dela, pois as histórias dos meus sapatos escritos estão recheadas de amizade.
Quando éramos crianças/adolescentes sempre nos encontrávamos na pracinha da Igreja do bairro de Lourdes. Éramos um tormento e um hiato de alegria no lugar. A pracinha era sempre movimentada com a nossa presença e do futebol às brincadeiras de polícia e ladrão a gente sempre transformava os jardins suspensos em palcos de atividades físicas.
Exageros também eram por nossa conta e algumas beatas, que também exageravam na fé, não gostavam muito de nossa presença. Em outubro, a pracinha se enchia de fé e de gente, que invadia o nosso espaço para celebrar Nossa Senhora Aparecida. Em um desses anos, exageradamente arrumamos uma brincadeira um tanto estranha.
Um de nós tirou o cadeado e a corrente utilizada para prender nossas bicicletas voadoras e começamos a prender uns aos outros. O dono da chave é que decidia quando iria soltar o escolhido.
Fazíamos questão de prender nossas vítimas próximas à entrada da Igreja, só para constranger o preso.
Em uma dessas prisões, prendemos o Guilherme pelo pescoço, em um poste de iluminação do jardim. Eram por volta das 14 horas, fizemos o nosso presidiário e continuamos a brincar. Como a próxima missa seria às 15, deixamos o Guilherme preso e para constranger ainda mais erguemos um “altar” com oferendas, flores, cachaça, farofa bem longe do alcance dele. O pessoal ia chegando e não entendia nada. Todo este sincretismo religioso soava tão estranho, mas nós chorávamos de rir.
Nesse meio tempo, apareceu a namoradinha do Guilherme que, indignada, resolveu ajudar o amado.
Com uma faca de cortar pão ela tentava serrar os elos grossos da corrente. A cena dantesca para nós era digna de Molliére, rei da comédia teatral.
Depois que o pessoal entrou na Igreja e a missa começou, decidi ir embora para casa. Era sempre assim, eu descia para tomar café, banho e voltava à noite para as barraquinhas. Voltei por volta das 19h30, de banho tomado, renovado e com roupa de festa e enquanto descia a rua 10 notei que o Guilherme estava preso no mesmo lugar. Aí pensei: “prenderam o Guilherme de novo” e já comecei a rir.
Quando cheguei perto dele fui logo perguntando se ele tinha sido pego de novo. Com os olhos vermelhos e a voz embargada ele me respondeu: “Não. Eu estou preso desde aquela hora. Eles foram embora e me deixaram aqui. Estou morrendo de fome, de sede e ainda me segurando para não fazer xixi nas calças” e desatou a chorar.
Coube a mim ir atrás do carcereiro e aliviar o sofrimento do preso.
É! Exageros cometíamos, mas o maior deles era ser superlativos em amizade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Nine



Só case se tiver certeza. Se casar, torne intenso cada momento vivido. A gente nunca sabe quando a alegria vai acabar. Divida sonhos, divida o dinheiro, jogue fora as velhas e emboloradas preocupações.
Se tiver em dúvida ou se sentir dividido, esqueça os conselhos, ouça seu coração. Ame apenas uma pessoa de cada vez. Só traia se não tiver sido traído. Porque quem já sofreu a dor de uma traição jamais irá proporcionar o mesmo sentimento a quem se ama. E lembre-se se trair terá que aguentar todas as conseqüências.
Tome mais sorvetes italianos de casquinha, ria mais, chore menos, preocupe-se menos. Liberte-se das conveniências, destrua os ciúmes e saiba que o máximo que ele vai lhe trazer é uma azia exagerada.
Olhe nos olhos, durma mais de conchinha. Ame mais debaixo de um edredom azul. Acredite em você quando disser que ama. Não engane, não esconda, não se desespere. Esqueça a saudade de noitadas, deixe o passado onde ele deveria estar, no passado. Não tente resgatar algo que já se perdeu ou fazê-lo conviver com seu presente. Isto não vai dar certo.
Viva o hoje, preocupe-se cada vez menos com o futuro e ame cada vez mais o cheiro de terra molhada numa manhã chuvosa.
Faça mais chocolates quentes com chocolate amargo. Espante mais lagartixas, não deixe os ratos da discórdia invadirem o seu coração. Se solte mais, viaje cada vez mais, mesmo que for para o seu eu interior.
Ame mais dentro do carro. Corra mais vezes nu pela casa. Faça cada dia mais, mais amor debaixo do chuveiro, na água quente, mesmo que seja em uma pousada fria.
Cante, se desdobre. Produza canções sem sentido. Desenhe flores em papéis de contas de supermercado. Prepare jantares. Deixe a comida queimar em troca de beijos calorosos. Escute cada vez menos a inveja de quem de fora vê esse amor.
Ouça Milton, visite Ouro Preto ou qualquer outra cidadezinha em que é possível encontrar a felicidade em uma pequena cama de hotel. Quando a dor te cortar busque forças na paixão.
Empolgue-se ao compartilhar momentos de sucesso, incentive sonhos, destrua pesadelos, acorde de madrugada para acalentar o sono.
Sinta o coração bater mais forte ao se reencontrar. Entre na sintonia do amor em pequenos cartões, em pequenos gestos, em caldos feitos em noites frias. Ame o colo, o ombro onde se deita em berço esplêndido. Queira sempre por inteiro e tenha sempre sua metade de volta.
Desfrute de cada beijo dado no pescoço, descubra o prazer de um sorriso sem motivo. Respeite o silêncio e a tristeza, mas não faça deles sua bandeira e nem deixe que o outro os tome como estandarte. Beba mais. Tome um porre de vez em quando e case-se de novo, com a mesma pessoa é claro, mesmo que no outro dia não se lembre, alguém vai fazer questão de recordá-lo como se encontra a felicidade. Passe mal, vomite se necessário, mas lembre-se que do outro lado da porta alguém sempre estará pronto para lavar sua blusa suja.
Seja a síntese e antítese. Desnude-se sem pudor. Derrote os mal amados. Acredite no amor que dá certo e esteja certo que mesmo na incerteza do dia seguinte ele ainda estará lá.
Resista às tentações logo de cara. Não deixe que o mal se aproxime, mesmo que de brincadeira. Não jogue tudo fora por um simples gracejo. Saiba que o que pode não significar nada para você, pode destruir a única que certeza que o outro tem e simplesmente fazê-lo perder o chão. Perceba que às vezes palavras ditas ou escritas sem querer magoar, magoam muito e carregam emoções para o mar da melancolia. Não toque onde não deveria. Não procure algo que possa se arrepender depois. O instante entre a felicidade eterna e a desconfiança pode estar a um clique. Arrependa-se do que fez, evite repeti-lo, mas esqueça o logo depois.
Reforme a casa, plante um gramado, reforme pensamentos, plante carinho. Descubra a alegria em vestido vermelho, faça coisas boas mesmo que só você saiba quais são.
Dedique-se a amar quem você escolheu para se casar. Seja emotivo, prudente, não seja leviano com os sentimentos dos outros. Seja você, descubra-se fraco perante as situações que causarem dor a pessoa amada, mas demonstre-se forte, ainda que por dentro estiver em frangalhos.
Mesmo que esteja magoado e queira brigar, xingar e perder a razão, não faça isso. Só servirá para se arrepender no dia seguinte e humilhar quem se gosta.
Visite museus ao livre, áreas ecológicas onde é possível sentir o cheiro da vida, brigue para entrar em um parque aquático para ter lembranças e sorrisos depois. Aperte a mão ao decolar, respire aliviado ao pousar pela primeira vez. Não fique constrangido ao dar de testa em um box de banheiro. Tente não passar mal no dia do seu noivado. Mas se sentir enjoado e com ânsia, relaxe. As boas emoções da vida são capazes de efeitos ou sensações físicas que vão muito além de nossa compreensão.
Respeite a individualidade, não leia aquilo que não é para você. Acredite no poder das palavras sejam elas para o bem, sejam elas para o mal. Diga não quando tiver que dizer não. Nunca use o talvez. No máximo fique em silêncio, que geralmente nunca quer dizer sim e nunca mais entre nesta situação.
Chore! Mas só chore quando realmente tiver motivo. Entristeça-se aos descobrir coisas ruins, mas não se martirize ruminando aquilo que não interessa. Saiba que mais dia, menos dia você vai magoar e será magoado também. Só não permita que isto seja uma constante. Jamais durma sem falar com o outro. Jamais deixe o lugar vago na cama. Despeça-se sempre com um beijo e dê boa noite ao dormir. Reze ou ore como você preferir denominar o que chamo conversar com Deus. Mas faça-o sempre juntos.
Ame com toda a intensidade do seu coração. Descubra o ritmo certo, siga o ritmo certo e só se case se realmente tiver certeza.
Porque o amor mora nos pequenos detalhes do cotidiano e o diabo também.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A comédia em pessoa



Sem delongas, para não dar preguiça de ler. Existem pessoas que só da gente olhar já dá vontade de rir. E têm algumas, que mesmo não querendo, ou as namoradas, esposas, mães, pais, filhos torcendo o nariz elas são engraçadas por natureza.
Uma das pessoas mais engraçadas que já conheci com certeza é o Dodete. Não é que o Dodete tenha uma naturalidade cômica, mas ele cria(va) e se envolvia em situações de dar inveja a qualquer comediante hollywoodiano.
O físico do Dodete, quando jovem, que lhe valeu o apelido de Grilo, a alta estatura e principalmente a língua presa, que o impedia de falar palavras corretas, sobretudo às com erres, compunham um personagem exemplar.
Quando conhecemos o Dodete todo mundo batia nele. De brincadeira é claro. Preocupado, o Fabrício um dia virou para o Calango e perguntou:
- Por que vocês batem no Grilo? Ele é gente boa demais.
- Gente boa???? Você vai ver quando ele pegar intimidade. Ele amola muito, isso sim.
Era verdade. Depois de um tempo também precisávamos dar uns cascudos nele para ele aquietar. O Dodete era aquele tipo de cara chato, gente boa. Que enche o saco de todo mundo, mas que no fundo todo mundo gosta.
Uma vez, fomos a um sítio. O Dodete e o Bruno beberam demais e acabaram passando mal. O Dodete ainda deu duas cabeçadas na parede, tentando entrar numa porta imaginária. Depois disso, a gente trancou os dois em um quarto e fomos dormir na sala. Espalharam uns colchões pelo chão. Eu juntei duas poltronas pequenas de sofá e fiquei todo “encumbucado” na cama improvisada.
Altas horas da madrugada os dois acordam. Vêm para a sala e dizem que vão dormir lá porque o quarto estava “azedo”. Só que o Dodete não deixava ninguém dormir. Aprontou uma falação, uma cutucação. Amolava mesmo. Depois de mais duas horas naquela peleja o Bruno levantou, acendeu a luz e foi taxativo:
- Agora é sério. Quem disser qualquer bobagem, gritar ou falar, vai tomar porrada para valer dos outros. Sem dó. Combinado?!
Todos concordaram. O Dodete ainda deu uma risadinha irônica antes de o Bruno fazer a contagem e apagar a luz:
- Um, dois, três...
Eu já tinha armado o soco para dar no Dodete. Todos nós sabíamos que ele não ia ficar calado. Mas, sempre tem um mas, por incrível que pareça, houve um silêncio sepulcral por alguns minutos naquela escuridão. Quando de repente:
- Auuuuuuuuuuuuu.
Era a deixa que todos aguardávamos para o espancamento do Dodete. Eu estava em posição privilegiada, pois estava mais alto que os outros. Naquele breu, todo mundo batendo no Dodete. Pior que quanto mais a gente batia nele, mas a gente ouvia a risadinha sarcástica do danado. Aquilo me dava uma raiva e eu o enchia de sopapos.
Minutos depois, de porrada ininterrupta, finalmente a gente escuta um chiado:
- Ai... Pára de bater, vocês estão batendo em mim, não no Dodete.
Instantaneamente a luz se acendeu. Do lado do interruptor, sem nenhum arranhão e até roxo de tanto rir estava o Dodete. O @##%¨&* tinha se levantado no escuro e buscado um local seguro, por isso o silêncio. Quando gritou, empurrou o Cabeça para o lugar onde ele estava deitado. O primeiro soco que o Bruno deu acertou em cheio a boca do estômago do Cabeça que, sem ar, não conseguia dizer que batíamos na pessoa errada. Depois disso a gente não dormiu porque o Cabeça ameaçou cortar a garganta do Dodete enquanto ele dormia.
Assim é o Dodete. Quando estudávamos, ele chegava todo esbaforido na cantina do Estadual:
- Ô Zuninho me dá uma cossinha, um guaianá e dos salgado – era forma dele pedir merenda e dois salgados.
- Dodete tem Guaraná não.
- Podi cê Guaiapan então.
Um dia fomos à casa do Sílvio Bernardes, diretor de Teatro. À época, a Ana Bella, filha do Sílvio, era bem pequena. Conversa vai, conversa vem, o Dodete fala com a menina que tinha um monstro no armário. Duas semanas depois o Sílvio reclama com a gente:
- Não sei o que a Ana Bella tem. Ela não quer dormir mais no quarto.
Outra vez, fomos encenar a dona Baratinha na extinta escola Crescer. O Dodete foi o Touro. Um monte de criança pequena assistindo a peça, rindo, se divertindo com a gente. Até que o Dodete entra em cena, corre em direção aos meninos e de uma forma nada lúdica, solta um mugido tão pavoroso que até a gente assustou. Preciso dizer que os menininhos não pararam de chorar mais e que a gente ficou sem o cachê da apresentação?
Mas o mais engraçado foi quando fomos a um parque de diversões. Assim que chegamos o Dodete, o Samir e o Rhafir foram andar no Rotor. Quando eles foram subindo eu ainda avisei:
- Dodete não anda nisto não. Você vai passar mal.
- Que isso Zuninho. Uuuuu mauco. Queo é rodá.
O Rotor começou a rodar e o Dodete gritando, fazendo gracinhas. Na hora que o brinquedo pegou embalo, só escutava o Rhafir dizendo:
- Vira para lá Mané. Não vai vomitar em mim não.
Um menino de sete anos começou a consolar o Dodete:
- Moço passa mal não. Moço, levanta a cabeça, moço...moço...
O Samir desesperou-se:
- Pára! Pára essa P* que estou contra o vento....
Eu que já sabia o que ia acontecer, corri para longe do Rotor. Pena que não deu para avisar quem estava próximo ao brinquedo. Um monte de gente, assim como o Dodete, teve que ir embora para a casa mais cedo...