
Vendo memórias, não sonhos e nem pesadelos. Vendo uma vida que não foi sua e nunca minha também. Vendo imagens rabiscadas em letras garrafais de um jornal. Vendo lembranças emolduradas em um sapato velho e gasto no pé direito. Vendo solidão, vendo inquietude, dou, de graça, com todo o pleonasmo possível, alegria, pelo menos tento que não entrem na porta da tristeza.
Vendo negativos de uma história caminhada em fragmentos. De uma expectativa de coisas que nunca aconteceram ou que se aconteceram esqueceram-se de me vender.
Vendo um velocípede, verde, vermelho, de três rodas que pode levá-lo a qualquer lugar sem precisar de esforços. Vendo um quintal enorme com inúmeras árvores e uma mangueira com um balanço, capaz de fazer você saltar tão longe que nem caxumba lhe pegará.
Vendo duas escadas de cimento postas lado a lado, que mimetizam traves em um campo de futebol. Vendo uma área de serviço com um tanque, onde quando se lava roupa, muito se molha e muito se xinga, armas feitas de elásticos com munição de tampinha.
Vendo um gesso, para que possa ser enterrado junto com o sofrimento. Vendo um caminhão que distribui refrigerantes feitos por índios Bugres. Vendo um tanque que de pé quebrado inveja os saltitantes e machuca a perna de quem gosta de olhar o céu em busca de doce de leite.
Distribuo, mas não vendo, apenas empresto, amizades feitas debaixo de uma Mangueira, ou seria em uma escola de tijolos de construção?
Vendo um pôster do Zé Carioca, manete de Atari, corda arrebentada de Vai e Vem, tamancos feitos de latinha de Nescau, baratinhas que não é preciso pisar para que sejam esmagadas. Vendo pombos, micos, cachorros. Só não vendo minha tartaruga que ficou para trás na calmaria das boas coisas e se hibernou no paraíso. Vendo um Lupy, vendo um Juquinha, vendo um pezão.
Vendo meu primeiro beijo, vendo minha primeira paixão. Vendo idas e vindas infinitas a capital, recheadas de bananas nanicas, não maçãs, mas sim bananas.
Vendo o cheiro de parafina, os choques nos braços. Vendo um médico que de tão competente é capaz de fazer caminhar e criar monstros. Vendo um playmobil sem cabelo, vendo um quintal lamacento com espigas de milho de lado a lado. Vendo uma menina andando em uma barra circular vermelha no meio da bola do quadro. Vendo uma mobilete batida em muros de chapa.
Vendo três copos de vitamina de banana, um grande, dois pequenos. Vendo perfumes, Avon, bijuterias compradas na galeria do Ouvidor, capazes de sustentar os sonhos. Vendo um avô, uma poltrona e o Jornal Nacional. Vendo uma avó e um fogão de lenha. Vendo uma família distantemente amada na boca de uma favela. Vendo outra avó de queixinho arrebitado sempre presente.
Vendo alguém despencando de um pé de fruta do Conde, uma casa centenária em um chão de terra vermelha. Vendo um riachinho e bois para se correr em desespero. Vendo um barracão, vendo um Fusca branco, vendo festas com piscas-piscas de Natal. Vendo gelo seco feito de talco, vendo uma bicicleta voadora, vendo livros em biblioteca.
Vendo cartas, vendo um entregador de jornal cansado, vendo letras tipografadas no sábado pela manhã. Vendo máquinas de escrever quebradas, fitas de vídeo empoeiradas. Vendo lágrimas, vendo uma boa visão, vendo colírios para se pingar duas ou uma vez ao dia. Vendo botas com ferro até o joelho.
Vendo o medo, vendo a insegurança. Vendo confiança, vendo e-mails, vendo conversas, vendo tristeza. Vendo, vendo o lusco-fusco, vendo um fantasminha, vendo guerra de mamonas verdes, vendo sabotagens e travessuras. Vendo choro na linha do trem, vendo uma casinha azul de janelinhas brancas onde o vento da madrugada tem permissão de entrar sempre que quiser. Vendo xadrez, vendo Poker, vendo passeios não feitos, beijos não dados, sonhos não realizados. Vendo desejos, engraxo, não vendo, sapatos.
Vendo insensatez, vendo bonés, vendo piscinas para se atravessar, óculos para nadar e braços para se quebrar com bolas de basquete. Vendo amizades, Vendo kichutes, congas azuis, cadernos em que se pode apenas escrever na folha, não na contrafolha. Vendo histórias inusitadas.
Vendo casinhas feitas de madeiras, enceradas com cera vermelha. Vendo declarações de amor, buquês de rosas, surpresas, serenatas. Vendo decepções. Vendo decepção.
Vendo mau caráter, vendo cartões roubados em papelaria, vendo um cartucho de vídeo-game do Sonic. Vendo um barracão. Pago para levar pão com salame e miojo. Vendo leads, cabeças, notas pé, sonoras, edição não linear, diagramação, gatekeepers, vendo conhecimento.
Vendo o Mineirão lotado, vendo gols do Guilherme e Marques e as tantas eliminações cruzeirenses, inclusive a do brasileiro de 99.
Vendo o provincianismo, vendo chefes prepotentes, chefes gente boa, vendo colegas de trabalho, vendo selos, vendo energia.
Vendo tudo, tudo passando, tudo se indo, tudo vindo. Vendo, sem remorso. Vendo para comprar tudo novo e de novo. Há só uma coisa que não vendo, para ficar curioso, nem vendo...